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Quem não quero ser

Nesta fase de me (re)descobrir, a tal fase do Entre, tenho tido muitas dúvidas acerca de velhos hábitos, comportamentos e novas formas de viver.

Quando tomamos consciência de que alguns comportamentos são formas negativas de gerir emoções, são máscaras, apegos, temos o livre arbítrio de os alterarmos. Ao longo dos últimos anos tenho feito esse exercício contudo, sendo eu uma pessoa tendencialmente ansiosa  que usa frequentemente o controlo como forma de gestão, tenho que estar sempre em alerta para o que, ao tentar controlar quem não quero voltar a ser não coloque rigidez e inflexibilidade em quem quero ser.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Encontrar esse equílibrio entre distanciar-me da pessoa que fui (comportamentos) e da pessoa que quero é a viver, experimentar, ajustar.

Um desses comportamentos são as férias. Viajo desde que comecei a trabalhar e, talvez por nunca ter ido de férias com os meus pais ou mesmo porque sim, ganhei um gosto enorme por ir. Viajei muito nos últimos anos. mesmo muito…fazia umas 3 ou 4 viagens por ano. Fui a alguns continentes, conheço muitas grandes cidades europeias, fiz escalas loucas e conheci pessoas incríveis. Mas dava por mim numa viagem já a pensar na próxima…não me escapava um fim de semana prolongado sem ir logo ver o que se arranjava para ele. Dei por mim a tomar consciência disso. Da necessidade de ir, de fazer vistos, que me estavam a desviar de sentir o momento.

Na pandemia pensei como iria eu viver sem férias! Eu precisava de sair de Felgueiras para me desconectar do trabalho, das pessoas. Era uma forma de gerir emoções. Sentia que só assim desligava, só assim relaxava.

A Pandemia obrigou-me a procurar outras formas de viver e a romper com o que ACHAMOS que precisamos. Foi a melhor altura da minha vida em termos de desenvolvimento pessoal. Deu-me muitas ferramentas e colocou-me a questionar o que até lá achava absolutamente imprescindível. Foi uma altura de verdadeiro desapego (do consumismo).

Hoje, viajo muito menos mas quando o faço dou por mim a selecionar sempre as férias de praia. Tenho sentido que já não me identifico com aquela semana de praia sem nada para fazer, sem nada que me desperte, onde passo horas a ler na espreguiçadeira a fugir do sol e a querer procurá-lo. Aquela rotina em que parece que me arrasto de refeição em refeição e onde o calor me “obriga” a ter que ir para a piscina e a lavar o cabelo todos os dias. Todos os dias a mesma coisa. Comecei a questionar se não me divirto mais em casa!

Estas últimas férias foram um teste. Cortei com os “tens de” ou “deves” e tentei fazer tudo de forma diferente –  fazer o que apetece, passear, caminhar e estar no quarto, simplesmente a ver um filme ainda que lá fora estivesse a praia mais convidativa não tínhamos de estar lá. Um plano sem planos. Onde o tempo é rei e onde o truque é não o ocupar mas fluir nele. Fiz as coisas que gosto de fazer quando tenho tempo livre, que me preenchem e não as coisas que se têm que fazer nesses locais. Porque férias é isso é dar tempo a ti mesm@ para fazeres o que não fazes no resto do ano.

É engraçado como sabemos que algo está errado mas ainda assim demoramos tanto tempo a mudar. Eu demorei mais de 3 anos. Claro que não dependia só de mim mas da pessoa com quem faço férias. Vamos na rotina à espera de voltarmos a sentir aquela alegria de antes, aquele entusiasmo. Mas o tempo passa e a espera mata…

Continuo a querer viajar, conhecer pessoas, povos, civilizações. Mas descobri outros prazeres, outras formas de viajar sem sair do local. Através do que mais me fascina – pensar, conhecer, aprender.

Sensações mais profundas que perduram no tempo ao invés dos prazeres imediatos que tal como vêm vão e deixam um sabor agridoce, uma sensação de ansia de ir…em vez da leveza de estar.