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Outer Banks – Quem é o JJ?

A expressão artística, música, cinema ou livros são excelentes formas  de manter ganhos entre sessões e por isso gosto de estar atenta às novidades  para saber o que recomendar. Principalmente as que se adaptam à pessoa em questão e que vão de encontro à sua pessoa. Hoje escrevo para falar da personagem JJ que podemos ver na série Outer Banks, disponível na Netflix.

O JJ tem uma família nuclear disfuncional. A Mãe faleceu e o Pai é toxicodependente e trata-o bastante mal – violência física e psicológica. JJ é assim uma personagem que cresce desamparado e cuja âncora são os/a amigos/a.

Podemos ver no JJ:

  1. um papel de cuidador extremamente ativo (e.g. na season 1 protege Pope dos seus agressores e assume a culpa do acidente do barco do Topper indo ele preso);
  2. um JJ que busca um sentido de vida ou propósito nas aventuras que vive com o seu grupo e aos quais dedica sua vida.

Os dois papéis existem em sinergia, um alimenta o outro.

Talvez esse mesmo grupo ainda não se tenha apercebido de que ele depende deles para se manter on treck. Quando as coisas acalmam e os personagens se despedem, podemos observar a sua expressão de desalento, o olhar perdido num grito de socorro; o Medo do confronto com a realidade (quem nunca?!) e inexistência de um porto seguro.

Nestas alturas vemos também um JJ errante que segue, sem querer,  as pisadas do Pai, assumindo por vezes a crença de que não tem outro remédio ou solução a não ser fazer aquilo que considera ser a sua natureza – destruir(-se). Claro que, algumas circunstâncias e pessoas exacerbam esta crença (e.g. os polícias quando o vêm fazem aquele olhar do “why not”).

Gosto do JJ porque vejo nele a mudança, ele quer mudar, ele quer descolar-se do Pai e vê nos amigos/a a solução para este vazio emocional utilizando assim uma estratégia de adaptação exterior (vejam a título de exemplo o caso da Maria que vem a consulta exatamente para trabalhar uma estratégia de adaptação interior, sempre mais funcional).* Ele é a prova de que todos/as nós somos feitos da mesma matéria – é a vida e as suas circunstâncias que nos colocam no bom ou no mau caminho e de que todos/as nós precisamos é de carinho e afeto. Quem conhece alguém ou alguma história de uma pessoa que tinha tudo e por um evento de vida impactante e negativo se envolveu em drogas ou outras situações que o colocam no NADA?

Quando me perguntam (e  fazem-me muitas vezes esta pergunta) se eu acredito no ser humano, a resposta é obviamente SIM. E quando me perguntam se somos bons ou naturalmente maus a resposta também é óbvia – nascemos bons (tirando as psicopatologias congénitas), puros/as e voltados para o positivo. Basta observar um bebé que sem nos conhecer de lado algum nos sorri – é a forma de ele se ligar ao outro, pelas emoções. Com o tempo, determinados modelos (pai, mãe ou outro/s) e a própria vida começamos a estimular mais as emoções negativas do que as positivas e eis que tudo começa a desmoronar…passamos a viver com medo, em antecipações mentais e futurologias ou as famosas cismas. E depois ouço muitas vezes “eu não era assim”…Estas palavras indicam-me tudo: se não era então poderá voltar a ser, isto é só uma passagem.

 

Não posso contudo deixar de tecer algumas criticas à série. Nomeadamente o facilitismo com que eles vivem a vida e o facto dos pais dos personagens (Kie e Pope) serem acessórios que eles usam e abusam; os acidentes que os personagens sofrem e que são rapidamente ultrapassados  (e.g. tiro da Sarah, John B foi atacado por um jacaré e nada se fez, etc etc) e o abuso excessivo de drogas como forma de divertimento e de ultrapassar emoções negativas. Temos também um Rafe a arranhar ali na esquizofrenia e na toxicodependência) que poderiam constituir boas formas de alertar a população alvo para estas problemáticas.

Vejam a série e comentem 🙂

 

A Psicóloga lá de casa.

 

*De forma a gerir emoções existem estratégias de coping (de lidar) internas e externas. Igualmente elas podem ser adaptativas e maladaptativas dependendo se elas conduzem o sujeito à gestão funcional das emoções ou não. Por exemplo, a droga apesar de conseguir reduzir a sintomatologia ansiosa é uma estratégia maladaptaiva porque poderá provocar outros problemas, nomeadamente a habituação. É também uma estratégia exterior porque não depende do sujeito o seu controlo, não é interna ao mesmo.