Chama-se Beatriz. Procurou-me porque trazia consigo o peso de duas falhas, duas tentativas de seguir um sonho, dois fracassos e dois anos de vida.
Vi uma menina com tudo nas mãos mas que carregava o peso do insucesso. A insegurança, a dúvida, o medo tolhiam cada palavra, cada ato e cada gesto. Nunca chorou. Mas sei que dentro dela gritava por socorro.
A Beatriz, esta pequena corajosa menina, entrou na Universidade de Aveiro em 2019; na Universidade do Porto em 2020, e em 2021, novamente na Universidade do Porto. A verdade, nua e crua, a Beatriz entrava mas não conseguia lá ficar. Em nenhuma das vezes ela frequentou qualquer uma destas universidades. Exceptuando claro, o ano de 2021. O ano da Beatriz.
Em 2019 quando se candidatou à universidade de Aveiro, como qualquer estudante após o término do secundário, nunca pensou que não iria conseguir seguir o seu sonho. Mas a mente deu-lhe as voltas e a Beatriz teve um ataque de pânico no momento em que a Mãe se preparava para a deixar na sua nova escola. Acabou por vir embora. O Medo tomou conta dela nesse momento e ela cedendo, arranjou-lhe um espaço para se colar e permanecer nela incapacitando-a, limitando-a. Chegar a casa e não conseguir, sentir que fracassou e ver os olhares de espanto e os porquês, lidar com os comentários de quem não entende os novelos da mente e de quem talvez tenha conseguido sempre fazer o que queria…Os pensamentos negativos assolavam-na noite e dia e, como fantasmas, assombravam e seduziam para um lugar escuro, de onde não sabia sair.
Procurou a minha ajuda em 2020, logo após outro insucesso – mais uma tentativa de seguir o sonho, desta vez no Porto onde considerou ser mais próximo de casa e onde tinha o apoio da irmã que vive e trabalha lá. Mas mais uma vez, o buraco negro arrastou-a numa espiral de dor e sofrimento; o corpo paralisou e as pernas não obedeceram ao sonho; o medo de não conseguir e o sentimento de estar a viver tudo novamente enredaram-na e arrastaram-na dali para fora. O DESCONFORTO não é um lugar seguro.
Fizemos uma intervenção psicológica quinzenal bastante segura. Tínhamos tempo. Tínhamos um ano para voltar a tentar e isso permitiu realizar uma reestruturação cognitiva – identificamos os pensamentos negativos e automáticos que geram as emoções negativas e trabalham-los OU se quiserem, trouxemos para a mesa de trabalho tudo o que era mau, refutamos, debatemos e reorganizamos. Voltamos a colocar lá dentro.
E finalmente, o grande dia chegou!
- “E se as pernas não andam?”
- “E se falho novamente?”
- ” E se não encontro as salas?”
Por vezes não eram assim em forma de pergunta! Eram certezas. Lembro-me de a ouvir dizer nas últimas sessões : “A probabilidade de não encontrar a sala é grande”. E lembro-me de lhe dizer que era tão grande quanto a de encontrar e que de certeza que haveria alguém naquele local que a conseguisse ajudar a encontrar…
A nossa mente não sabe distinguir o real do imaginário. Se nós pensamos algo ela assume que é verdade e reage! Interpreta como uma ameaça e dispara o sistema de alarme – prepara-nos para a luta ou fuga : o batimento cardíaco acelera, as mãos suam, as pupilam dilatam, a garganta seca…etc etc…
Mas este ano, foi o ano. Ela entrou, ela está lá, ela é feliz e ela até se voluntariou para ser a primeira numa praxe!
Beatriz precisou de parar, pensar, conhecer-se. Um passo atrás, dois à frente. É hoje uma jovem com um sentido emocional e pessoal que poucas pessoas têm e tenho a certeza que ela está muito melhor preparada para a vida em geral do que muitos jovens com um percurso normal.
A ansiedade existe, é real. Tod@s a temos. Tod@s a sentimos. Uns sabem lidar com ela, outr@s acham que sabem e vão caminhando na dor e sofrimento e outr@s ainda, precisam de orientação. E isso não tem mal nenhum.
E como eu digo, vencer o MEDO, é a minha cena. 🙂
P.S. Podem conhecer a história da Beatriz aqui. Fez parte do nosso trabalho terapêutico escrever um blog com o seu percurso, quem sabe poderá ajudar alguém.
Nota: Este artigo teve o total consentimento informado da cliente. Serve o propósito de ajudar ou motivar outras pessoas a procurarem ajuda. Ressalva-se que é uma breve história da intervenção psicológica que deve a sua terapêutica manter-se em sigilo profissional, sendo um trabalho individualizado e personalizado.

