“É boa pessoa.” “É muito verdadeir@.” “É Honest@”. Não tenho filtro” ou até, “Sou muito transparente.”
Quem nunca ouviu estas expressões ou, eventualmente, já as proferiu? Há muito que elas me irritam e por isso, hoje trago-as aqui.
O ser humano nasce com emoções positivas e negativas. Não há escolha possível. As emoções são um expecto, compras em atacado, não dá para ter umas e não ter outras. As emoções são também ferramentas, competências que te permitem agir. São as antecessoras dos comportamentos. São elas que nos dizem se vamos fazer algo ou não, sendo certo que o não fazer é por si só um comportamento (como o silêncio).
Posto isto, NÃO HÁ UM SER HUMANO À NASCENÇA, MELHOR DO QUE OUTR@. Por outras palavras, nascemos com as mesmas ferramentas, mas as que usamos mais vão ser aquelas que vamos mostrar mais e, consequentemente, vão confundir-se com quem somos. Vão definir-nos, por assim dizer.
São as experiências da nossa vida e as influências que vamos sofrendo, juntamente com a nossa genética, que, num ser humano “normal” (ausente de psicopatologia congénita) vão ditar as ferramentas a usar. Isto significa que, uma pessoa que me procure por não conseguir ou ter dificuldades em dizer não, terá, à partida, défices de estimulação em determinadas ferramentas/emoções como sejam a compaixão, auto-estima, confiança, etc etc (um exemplo). Significa também que é possível de trabalhar, estimular essas mesmas ferramentas e, por conseguinte, colocar a pessoa a demonstrar uma comunicação assertiva.
E voltando às expressões acima mencionadas, as mesmas referem-se ou são usadas para caracterizar pessoas que (do consciente para o inconsciente):
- Têm dificuldades em dizer não;
- Em virtude disso, são mais facilmente instrumentalizadas ou usadas pel@ outr@;
- Têm um estilo comunicacional passivo;
- São influenciáveis e/ ou mudam de opinião facilmente;
- Não se conhecem pelo que não se aceitam*;
- e, por conseguinte, dedicam a sua vida a satisfazer as necessidades de outrém para sentirem aceitação, pertença evidenciando também que ausência de afeto próprio, auto-estima e/ou autocompaixão;
- E para as pessoas verdadeiras e transparentes, caríssimos, uma pequena farpa, lamento mas são escravas do pensamento automático. Isto é, vocês não pensam com base em todos os fatores envolvidos mas são reativas, reagem pela emoção.
ATENÇÃO! Estes 7 pontos podem não existir nas pessoas que cabem nestas expressões. Obviamente falo sempre num geral mas já sabem que trabalho no particular, no indíviduo, no singular e na singularidade, passando a redundância.
Basicamente usam-se essas expressões procurando ilibar estas pessoas da sua responsabilidade no que lhes acontece e no facto delas não conseguirem tomar as rédeas do seu ser. Quer estejamos a falar de quem diz o pensa ser ausente de empatia ou de quem não diz o que pensa e guarda ciclicamente para si, ser ausente de assertividade. Quer num caso quer no outr@ tratam-se de pessoas que claramente não estão funcionais e que, de uma forma ou de outra, irão acabar por magoar ou magoarem-se. E isso não as desculpa nem as culpa mas responsabiliza-as. E, aquela que pessoa que cabe no número 6, é claramente alguém que se esquece que ela também é um ser humano e por isso, respondam-me vocês, acham que ela ama os seus humanos no geral? Ainda que ela se dedique a tod@s eles em detrimento de si própria e das suas necessidades, acabando depois num grande sofrimento e sentadas nas minhas cadeiras? Eu respondo, não. Esta pessoa está a ser desigual e a discriminar alguém…ela está a ser racista, ou xenófoba, ou preconceituosa, ela discrimina-se a si própria, esquece-se de se cuidar, de se amar e de que todo o amor começa em nós mesm@s. Dentro de cada um/a de nós…
Agora vamos falar de neuroplasticidade. Uma cena que se descobriu há uns anos termos e que é a capacidade de o cérebro, até ao fim dos nossos dias neste corpo, crescer, ou seja, mudar, transformar-se e construir-se. O SER constrói-se quando, como e onde quisermos. Como se costuma dizer, as pessoas mudam. Ai mudam sim. Mas as cenas, as tais ferramentas já lá estavam só faltavam peças para as pudermos usar. Uns encontram peças para as ferramentas boas e outros encontram peças para as ferramentas más…
Basicamente, umas pessoas são boas e outras são más. Mas isso é um estado não é um SER. É uma fase se quiserem assim entender, porque todas podem ser trabalhadas. Por isso é que eu digo sempre que na verdade não há pessoas boas nem más. Ou melhor, tod@s somos bons ou boas porque dispomos de um léxico de emoções e ferramentas que, usados na proporção certa ou em equilibro, nos permitem ser quem nascemos para ser…a questão é que somos corrompidos mal acabamos de nascer pelas tentações terrenas, isto é, dinheiro, poder, sucesso, visibilidade ou fama…e tod@s nós somos. Uns mais outros menos. Resta a cada pessoa olhar para si, ver quem é e quem está a ser, sentir-se e querer voltar a casa. Voltar a ser quem nasceu para ser. Voltar a si. Reencontrar-se.
A psicóloga Lá de Casa

