Tive contacto com a linguagem de género em 2009. Sempre defendi o feminismo. Sempre defendi a igualdade. Sempre defendi os direitos humanos.
O meu trabalho enquanto ativista começou na minha casa. No(s) momento(s) em que tive que bater o pé e me rebelar contra a desigualdade de educação.
Mais tarde, apercebi-me de que a desigualdade abarcava todos os contextos em que me movia: quando os rapazes nos apalpavam ou nos levantavam a saia; a humilhação em público perante piropos obscenos ou mesmo demonstrações físicas sexualizadas; nas palavras ofensivas à figura feminina ou no medo que sentíamos que algum rapaz entrasse nos balneários femininos ou espreita-se nas janelas.
E a desigualdade continua, quando numa tentativa vã de nos livrarmos da mesma, alteramos a nossa forma de ser e estar – quando deixamos de usar saias na escola; quando temos vergonha do nosso corpo; quando evitamos ir sozinhas ao WC; quando emitimos um sorriso tímido perante uma ofensa a outra mulher e ainda, quando somos nós mulheres que ofendemos gratuitamente outras mulheres proferindo comentários como: ” Uma mãe de filhos não usa aquela saia”; ” Para estar naquele lugar deve andar com o patrão”; “Não tem vergonha de ter arranjado outro”……………………………………..
Estes comportamentos são significativos: somos julgadas desde o dia em que nascemos; desacreditadas quanto às nossas capacidades intelectuais; o nosso corpo é usado como forma de vender carros, roupas e entradas nas melhores discotecas.
A linguagem expressa uma base cultural e é intencional. Segundo o dicionário da L.P.: “Expressão do pensamento pela palavra, pela escrita ou por sinais” e
“O que as coisas significam”.
As palavras que usamos transmitem mensagens e contam a nossa evolução histórica. Empregam a forma de pensar dos seus criadores e nós, de forma natural, usamo-la, geração após geração sem nos questionarmos da sua origem. Indo à génese da mesma, a linguagem que usamos surge de uma base patriarcal em que o homem era o senhor da casa e a mulher não tinha posição na sociedade. E este é o busílis da questão da linguagem de género.
Felizmente ao longo dos tempos (e a troco de vidas humanas) as mulheres foram conquistando o seu espaço. Porém, vamos a fatos:
- As mulheres ganham menos do que os homens em cargos/funções iguais;
- Há menos mulheres em cargos de chefias, políticos e posições de notoriedade;
- A violência doméstica incide maioritariamente no sexo feminino;
- às mulheres estão associados os papéis domésticos, educação;
- São as mulheres quem mais recorre a licenças de parentalidade, adoção, assistência a menores e a filhos/as com deficiência ou doença crónica.
As palavras utilizadas expressam esta nossa história e assim, a linguagem de género pretende constituir-se como uma forma de veicular palavras neutras, com pensamentos e formas de ser e estar igualmente neutros e livres de preconceitos e discriminação. Ao utilizarmos as palavras certas, estaremos a partilhar os pensamentos certos e a promover uma sociedade justa e igualitária (ou pelo menos mais próximos).
Como tal a linguagem de género é agora denominada de linguagem inclusiva – a linguagem que inclui todos/as.
A linguagem pode contribuir para a manutenção de certas desigualdades. Uma linguagem sexista certamente contribui para uma sociedade sexista. E uma linguagem inclusiva é o meio mais próximo para uma sociedade consciente e igualitária.
Bibliografia:
Abranches, G. (2007), Ler a linguagem: breves notas sobre desproporções e dissemelhanças, pseudo-genéricos e a igualdade entre os sexos, in AAVV, a dimensão de género nos produtos educativos multimédia, Lisboa, DGIDC, pp.77/82
Abranches, G. (2009), Guia para uma linguagem promotora da Igualdade entre Mulheres e Homens na Administração Pública, Lisboa, CIG – Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, cadernos Trilhos da Igualdade
Barreno, M. I. (1985), O falso neutro: Um estudo sobre discriminação sexual no ensino, Lisboa, Instituto de Estudos para o Desenvolvimento
Castro, M.; et al (2002), Manual de lenguaje administrativo no sexista, Málaga
CITE – Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (2003) Manual de Formação de Formadores/as em Igualdade entre Mulheres e Homens, Lisboa

