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Ler

A leitura constitui uma competência essencial transversal a todas as disciplinas. Está diretamente relacionada com o (in)sucesso escolar e tem impacto a nível emocional e comportamental, afetando e influenciando o auto conceito (Cruz, 2005; Vaughn, Bos & Schumm, 2007). Aprender a ler é um marco na vida de qualquer criança e progenitor e o défice de competências de leitura, está em Portugal, diretamente relacionado com o número de retenções no 2.º ano de escolaridade (Rodrigues, Alçada, Calçada & Mata, 2017).

 

O hábito de ler influencia a redução da probabilidade de demência na idade mais adulta, nomeadamente Alzheimer (Peyronnete, 2012), melhora a auto-estima e promove a estimulação geral e principalmente do cótex pré-ftontal (responsável pela tomada de decisões, resolução de problemas), desenvolve a concentração e atenção, em declínio na idade adulta (Chopra &Tanzi, 2018).

 

A minha paixão pela leitura cresceu comigo, através dos incentivos das mulheres da minha família, que sempre viveram os romances da “Júlia”, “Sabrina” e outros nomes femininos que originavam múltiplas coleções, presentes nas estantes da minha casa. Via a minha mãe trocar livros com as irmãs e quando estava na casa da minha Tia Glória, aproveitava todas as oportunidades para poder ver o sótão com os livros da minha prima, baús de histórias, cadernos com folhas secas e amores-perfeitos pelo meio. Rodeada de um cheiro a mofo e apesar do medo que tinha dos ratos, não desperdiçava um único momento desejando que alguém mos oferecesse. Tinha 4 ou 5 anos.

 

Comecei a pedir livros não sei bem com que idade mas sei que tenho inúmeras revistas de banda desenhada, fruto daquele interesse pelo sótão onde os livros de histórias da minha prima, ilustravam o Mickey e companhia. E sei também que um deles, acabou por vir para mim. Um almanaque de verão. Grande e gordo. Com cheiro a folhas recicladas. A minha paixão vai tão longe que ainda hoje, cheiro os livros. Ainda hoje busco o conforto do cheiro a velho, a humidade…o cheiro da minha infância.

 

Mais tarde ganhei direito por idade a explorar as estantes das Sabrinas e Júlias. A minha tia Graça emprestava-me os seus melhores livros com romances que ilustrava amores vividos em ilhas gregas, Ficaram-me na memória e abriram outro precedente – viajar.

 

Hoje, encontro-me a fazer uma tese de mestrado em dificuldades de leitura. Que grande coincidência!!! Ou não…

 

E é por isso que hoje escrevo . Muitas vezes sou abordada, em consulta, com o desinteresse das nossas crianças pelos livros, pela leitura. Por isso, para além da partilha do meu amor pelos livros, cujo desenvolvimento o justifica, deixo aqui algumas notas que podem ajudar algum pai ou alguma mãe que queira passar para a sua descendência estas emoções positivas. Há dois grandes parâmetros – a modelagem e o contexto (ambiente). Passso a dar algumas ideias:

 

  1. Observação – Se querem que as crianças façam algo, têm que dar o exemplo. A nossa principal forma de aprender é por modelagem, seguindo aqueles/as que são os nossos modelos. A criança que vê o Pai ou a Mãe ler acaba por ter interesse, desde muito cedo por esse objeto e pela sua exploração.
  2. Associação – Procurem chamar a atenção das crianças para as palavras escritas ou em placas de publicidade, ou mesmo nos supermercados, onde um produto (imagem) faz associação com palavras escritas.
  3. Ter livros em casa;
  4. Frequentar bibliotecas;
  5. Contar histórias
  6. Incentivar a criança à construção de narrativas fazendo perguntas que permitam que ela vá contando e desenvolvendo (e.g. como correu o teu dia hoje?)
  7. Jogos – Haverá melhor forma de prender o interesse de uma criança que a criação de jogos? Há imensos jogos de tabuleiro que se podem comprar nos hipermercados ou lojas de brinquedos e existem jogos disponíveis gratuitamente na internet…às vezes basta só mesmo escreverem algumas palavras num papel para criarem um jogo. Nas crianças pequenos os jogos de associação a sons e letras são fundamentais. E o famoso jogo do stop?
  8. Partilhar um livro funciona bem em qualquer idade – ora lê um uma página ora lê o outro…
  9.  

 

No caso de crianças em idade escolar, já com dificuldades identificadas na leitura, pode e deve optar-se pela mesma estimulação, contudo, poderá ser necessário adicionar apoios extra do ponto de vista terapêutico e educacional, como sejam, apoio adicional ao nível da fluência e compreensão da leitura providenciado por um/a professor/a de educação inclusiva e/ou intervenção psicológica e/ou terapia da fala. Dependendo das dificuldades e queixas, o/a psicólogo/a será o/a profissional indicado para a realização da avaliação psicológica que fará a discriminação de áreas a trabalhar e encaminhará para a terapêutica mais indicada.

 

Mais sobre este assunto e como trabalhar em crianças em idade escolar:

 

Vaughn, S.; Bos, C. & Schumm, J. (2007). Teaching students who are exceptional, diverse, and at risk in the general education classroom. Pearson.

 

Vaughn, S. &Bos, C. (2009). Teaching Studentes with learning disabilities and behavior problems. Pearson.