O meu querido diário está na moda e veio para ficar!
De cara lavada e com a tónica na saúde mental, escrever sobre os nossos sentimentos, emoções e pensamentos está cientificamente demonstrado ser uma ferramenta poderosa na manutenção do equilíbrio emocional e promoção do bem-estar.
Na psicologia, a utilização da escrita como técnica e estratégia de intervenção, não é uma novidade. Está presente na teoria cognitivo-comportamental, na psicoterapia e na maioria dos modelos e teorias utilizados para a intervenção psicológica. É um instrumento precioso, capaz de proporcionar um maior auto conhecimento e acelerar os ganhos da intervenção.
Escrever é ler duas vezes; é colocarmos-nos em vários papéis: o de pessoa que escreve (sobre si), a pessoa que vive (o que escreve) e a pessoa que a vai analisar (ler e interpretar), colocando-se como um/a observador/a.
Quando nos colocamos no papel de observador/a da nossa própria história, temos o poder de a transformar. De a VER melhor com as lentes do não-julgamento, da compreensão, empatia e COMPAIXÃO*. Desta forma, relativizamos os problemas, perspetivamos a resolução dos mesmos e colocamos a intenção de tomarmos decisões pró-ativas e preventivas.
Mas então o que é o journaling?
O journaling é um registo escrito num caderno, uma espécie de diário, que habitualmente acompanha o dia-a-dia da pessoa. Este diário (ou journal) pode, ou não, acompanhar a pessoa para todo o lado para que ela possa registar aquilo que lhe TOCA e assim não se esquecer. Esse registo permite percebermos quem somos, o que fazemos, encontrar um padrão repetido comportamental capaz de nos conduzir a estados emocionais e comportamentais negativos (ou disfuncionais) e que, ao ser assim analisado e evidenciado conduz-nos à CONSCIENCIALIZAÇÃO. Assim, a pessoa que se conhece, que conhece onde, quando e em que situações costuma errar adquire ferramentas para prevenir arrependimentos, sentimento de culpa, tomada de decisões prejudiciais, atitudes e comportamentos baseados no impulso.
A pessoa que pratica journaling guiado, isto é com recurso a um/a coach pessoal ou terapeuta, consegue obter um perfil do seu modo de funcionamento. O que, aliado a outras técnicas terapêuticas promoverá a otimização das suas capacidades e competências cognitivas.
Como sei o que escrever?
Já há livros, sites, blogues com perguntas ou frases orientadoras. A intervenção psicológica ou a realização de uma sessão de psicologia, orientam a aprendizagem e utilização desta ferramenta que não serve de nada se carecer de uma correta interpretação. Senão é um diário (à moda antiga), que também é útil e importante, mais que não seja como instrumento de partilha, desabafo e alívio da carga ou tensão que possam existir.
Podemos escrever sobre:
- O nosso dia – aprendizagens, acontecimentos, pessoas;
- Sentimentos e pensamentos (que podem ser trabalhados de acordo com uma determinada orientação terapêutica);
- Preocupações;
- Objetivos;
- Gratificações ou bênçãos;
- Frases, excertos de livros ou filmes que tenhamos visto.
Conselhos de utilização
A melhor hora para trabalhar o nosso EU diria que é de manhã. Contudo, depende muito do que a pessoa quer escrever. Eu escrevo essencialmente de manhã e durante o dia. Conforme vou vivendo ou me recordando de coisas que quero trabalhar.
Aconselho muitos clientes que trabalham comigo a escreverem de noite, por uma questão de disponibilidade de horário e também para que façam uma descrição do dia. Neste caso, peço sempre para fecharem aquele relato com uma transformação positiva e/ou uma gratificação: “Hoje sou grata/a por:” Para que, no caso do assunto provocar desconforto emocional, a pessoa possa desligar-se dele e dormir bem evitando assim dormir com o inimigo.
Vantagens do Journaling:
- Recordar o dia permite trabalhar competências cognitivas como a memória, evoção, percepção, atenção…competências essenciais para aumentarem a consciencialização;
- Registar as aprendizagens do dia permite observar a sua evolução e crescimento pessoal desde a primeira página. Isso trás-lhe confiança, segurança e auto-estima;
- Recordar as bênçãos diárias, os motivos pelos quais é grato/a afasta estados emocionais negativos prolongados, capazes de conduzir a doenças como a depressão;
- Liberta as preocupações e aumenta a predisposição cerebral para a construção de objetivos válidos assentes em valores que sustentam a sua conduta;
- Potencia as emoções positivas e aumenta a flexibilidade cognitiva – começamos a ter mais escolhas, mais opções que não o emperramento do passado. Basicamente, abrigo-nos a um mundo novo;
- Melhora os relacionamentos interpessoais, uma vez que, nos tornamos mais compassivos/as com o ser humano. Quando nos conhecemos melhor e passamos a fase da dor e sofrimento, vislumbramos a aceitação e com isso emergimos. Deixamos de sentir raiva, ódio pelo/a outro/a porque nos tornamos mais resilientes a comentários destrutivos;
- Desvalorizamos o acessório e valorizamos o essencial;
- Reeencontramos a nossa essência.
E por isto e muito mais, quem trabalha comigo sabe, que vai ter que sair da sua zona de conforto e ESCREVER. 🙂
Leitura adicional: https://www.robinsharma.com/article/how-to-keep-a-journal
*Irei escrever sobre a Teoria da Compaixão em breve.

