Se a quarentena trouxe o assunto peso à ordem do dia, o desconfinamento e o verão trouxeram a procura pelo milagre.
Nos últimos meses temos assistido a inúmeras publicações, posts, artigos, podcasts sobre este tema. Uns/as querem perder, outr@s querem ganhar. Eu também escrevi sobre isso porque, com muito pesar, vejo que o que fez disparar o problema do peso foi a parte psicológica… mas é só do peso que as pessoas querem saber. O peso vê-se a ansiedade nem por isso.
Hoje não escrevo sobre o peso em si mas sobre esta estranha forma de vida (do fado) de mostrar – viver para fora. Impulsionada pela pressão social, através das redes socias.
Sobre o que vemos nas redes sociais:
- Experimentem tirar fotografias instagramáveis às refeições – seca não é?
- As fotos em bikini, têm fotoshop, filtros ou poses favoráveis.
- A vida bela em hotéis -patrocinados- é um trabalho.
- Pessoas magras gostam de magras, pessoas gordas gostam de gordas e assim, sucessivamente.
Identificamo-nos com as pessoas que têm algo que almejamos e/ou que têm alguma característica que não gostamos em nós. E como elas são conhecidas, assumimos que é possível ser feliz assim – é a chamada atenção selectiva – e é com isto que as redes brincam.
Eegra geral @s influencers e famos@s não colocam que são vítimas de violência doméstica; que têm ataques de pânico; que o pai não está em casa porque tem uma amante; que demora horas a tirar as fotografias das bowls que supostamente come (acredito que muita comida vá parar ao lixo ou a outras bocas); que é preciso tagar os hotéis, marcas… (fazer escova e pedinchar em bom português) .
Porque esgotaram as revistas com a Helena Coelho como capa?
Porque nos ferimos uns aos outr@s e a nós mesm@s?
Há dois ou três anos um monge budista aterrou no Porto para um congresso e disse que estava muito preocupado com as mulheres portuguesas que usam as calças extramente apertadas na zona abdominal, prejudicando a qualidade da respiração (aumentando a propensão para problemas emocionais como ansiedade) e dificultando a função dos órgãos internos. Who cares?
A diferençofobia... no parque que frequento, reparei numa árvore com folhas secas. No meio de tantas árvores e em tantas vezes que passo lá, captou-me a atenção pela diferença. A única árvore com folhas secas em pleno verão…Quando nalgum aspeto físico somos diferentes – usar óculos, ter peso a mais ou a menos, ter tiques efeminados ou masculinos, gaguejar…. chamamos a atenção. Essa diferença tem sido a cruz de muitas crianças, agora adultos/as feridos/as. Porque quando queremos magoar alguém usamos esta diferença pejorativamente – “seu preto de *****” é apenas um exemplo, há outros que nem ouso aqui escrever!
Nos movimentos de bodypositive ou bodyshame que francamente apoio, acabamos por ver exclusão onde é suposto ver inclusão! Não são só as pessoas gordas ou negras que sofrem com o corpo. E custa-me ouvir falar no “privilégio” :” Ah porque tu não sofres tanto como eu porque ser alto é melhor que ser gordo”. A perceção corporal é apenas isso, uma perceção e portanto até a pessoa de corpo padrão pode sofrer de bodyshame (veja-se o caso recente da Sara Sampaio ou outras modelos). A diferença mata! A pressão social velada ou não (através do bullying por exemplo), mata! Não mói, mata! Há uma associação significativa entre pressão social e perturbações emocionais, perturbações do comportamento alimentar, perturbação obessessivo-compulsiva…que condicionam e conduzem a uma série de co-morbilidades, elevado risco de enfarte do miocárdio, colesterol elevado, diabetes cancro!!!
Vivemos uma DIFERENÇOFOBIA!
Então, pensem nisto de cada vez que nos culpamos, castigamos e criticamos pelo o que comemos ou pelo que fazemos…saúde mental primeiro por favor!!Não é à toa que Portugal é o país que mais compra benzodiazepinas (medicação ansiolítica e/ou depressiva).
Comer por intuição, com peso e medida.
Dar atenção e importância a aquilo que verdadeiramente interessa – a Vida – a maior dádiva do universo.
A Psicóloga lá de Casa.
- O termo diferençofobia não é cientificamente aceite nem existe na literatura. É aqui utilizado como força de expressão, por mim.

