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Como aceitar o fim de uma relação? – Caso de Maria

Hoje escrevo para contar a história de Maria. Maria é o nome fictício para proteger a identidade da minha cliente. Maria pode ser o seu nome e a esta poderá ser a sua história…

Maria procurou a minha ajuda o ano passado antes da pandemia. É uma pessoa na casa dos vintes, com uma boa situação profissional e relacional e muito suporte familiar. Viveu uma relação de quase 5 anos, aparentemente feliz até ao dia em que esta pessoa termina a relação pelo Messenger.

Maria chega triste, indignada, revoltada e com muitos porquês: porquê eu, porque acabou assim sem uma explicação e…o que é a que a outra tem que eu não tenho.

Combinamos realizar uma intervenção quinzenal onde se procurou fazer uma reestruturação cognitiva. Preparei também a cliente para o facto de que ele poderia querer voltar e estabelecemos, de acordo com o seu modos operandi, a sua reação – para ela nunca se colocou a hipótese de um regresso. O seu orgulho haveria sido severamente ferido assim como os seus valores, algo que ela não estava disposta a ultrapassar. Maria não seria feliz a quebrar estes valores e isso foi a base do nosso trabalho e os pilares que a sustentaram neste processo.

Foi um processo muito difícil, o “deixar ir” algo que nem se sabe bem porquê. Durante este ano e meio de trabalho, Maria viveu um confinamento que lhe retirou o trabalho/escape emocional exacerbando medos e os porquês e dois atentados do ex-namorado. Das duas vezes, não voltou para ele. Mas duas vezes tivemos um retrocesso no trabalho terapêutico. Maria pensava que de cada vez que as coisas melhoravam ele aparecia e estragava tudo. Parecia que ele sabia que ela estava bem sem ele…e quando ela lhe dizia que não havia forma de voltarem ele tratava-a mal e virava o jogo novamente saindo por cima e desprezando-a. Colocava-a novamente num lugar negro, escuro e frio de onde era muito difícil retirá-la.

Reiniciávamos quase do zero, às vezes pior do que zero…mas aproveitamos estes momentos para percebermos quem ele era na verdade. Para desmontar esta figura impenetrável, este grande e primeiro amor. Só ela sabe a que custo emocional….

 

Quem era este ex-namorado?

Esta pessoa pedia dinheiro “emprestado” à minha cliente e à família; afastou-a do seu círculo de amigos; criticava a sua forma de vestir e ser;  exercia frequentes elogios a si mesmo à sua frente demonstrando-lhe superioridade e inferiorizando-a. Era um rapaz que usava os seus atributos físicos para iludir as pessoas e que tinha o dom da palavra.

 

Quem se tornou Maria nestes 5 anos?

Maria tornou-se uma pessoa que vivia para aquela relação. Uma pessoa que deixou de usar saias ou decotes, uma pessoa que se desvalorizou perante este homem sendo subserviente. Vivia para ele, para ele estar bem, para cuidar dele. Esqueceu-se de si mesma, das suas necessidade e até dos seus/uas melhores amigos/as.

 

Transformar a história com novas lentes

Todas as pessoas à volta viam  o que estava a acontecer mas Maria só despertou sob o impacto de um duro término e dumas palavras que foram escritas e nunca ditas. Aquela pessoa com quem partilhou tantos dias da sua vida era um monstro. E toda a gente sabia mas ninguém tivera a coragem de lhe dizer. Ela própria sabia e foi preciso perdoar e perdoar-se para seguir em frente…

O medo da perda…do amanhã…o medo que nos limita, que nos cega.

Somos responsáveis pelos nossos atos e escolhas. Maria tomou uma escolha e não correu bem. Faz parte. É assim que crescemos.

Como falamos várias vezes, ainda bem que isto aconteceu, ainda bem que ele acabou o relacionamento daquela forma tão crua e ainda bem que desse amor nasceu um ódio. Foi deste nada que nasceu um tudo. Uma nova pessoa. Uma pessoa que nunca desistiu de si mesma, de ser a sua melhor versão e que confiou. Uma pessoa que hoje é verdadeiramente feliz sozinha e que deixa transparecer essa alegria e beleza contagiante. Uma pessoa que é um exemplo de coragem e do que podemos fazer com a carga emocional pesada que carregamos – transformar a adversidade e a fragilidade em cura e em crescimento, restabelecer o amor, conhecer-se e aceitar-se. E o resto vem.

  • Os/as amigos/as voltaram.
  • No trabalho subiu de posto.
  • A Maria voltou, (re)encontrou-se, cresceu.

Tenho a certeza que será muito feliz. Sei isso pela forma livre e sem limites rígidos com que vive. E esta magia, contagia.

Dedico esta história a todas as Marias e Joões deste mundo fora – às vezes precisamos perder para ganhar.

 

P.S. Há dias vi a Maria com duas amigas. Não lhe disse nada, fiquei só a ver. A pessoa que vi passeava pela rua de forma descontraída e leve com um sorriso no rosto…sei que uma parte de mim está ali.

Deixo aqui uma música que retrata o trabalho terapêutico. https://www.youtube.com/watch?v=mWQACEqf4QY

 

 

A Psicóloga Lá de Casa.

 

 

 

Notas: Esta história foi escrita com o total conhecimento da cliente mas propositadamente não foram aqui abordados alguns passos terapêuticos inerentes à ética e sigilo profissional reservados ao processos terapêutico. Algumas considerações podem ser tecidas sobre alguns aspetos aqui mencionados, nomeadamente a questão da violência de namoro aqui velada. Contudo, este exercício tem apenas o intuito de ajudar/motivar quem precise de (re)começar. Porque todos os dias são bons dias para darmos o 1.º passo da nossa vida.

A Maria continua a trabalhar e estimular a sua mente. Mas num plano de resiliência e de comunicação assertiva. Num plano leve como ela e porque assim deseja, com a leveza do tempo ao seu lado e com uma periodicidade menor.