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As formigas

Ser psicóloga é ter inúmeros pensamentos e reflexões das minhas histórias e das vossas histórias. Ser psicóloga é ser bombardeada por pensamentos assim e assado no mesmo milésio de segundos; é questionar ciclicamente e é, por vezes, perguntar-me o que é meu e o que é vosso.

Preciso por vezes de sair de mim mesma para parar. Para parar de pensar. Para abrandar, para silenciar este corropio de ideias. Acredito que esta profissão não poderá ser para sempre, eventualmente poderei deixar de ter este travão, do que é meu e do que não é, e confundir tudo e deixar a doença formar-se em mim.

Sempre digo tod@s nós, TOD@S nós, podemos estar do outro lado da linha. Tenho consigo dar conta, perceber o meu limite. O limite daquilo que eu quero para mim e para quem comigo caminha.

Li um livro chamado “O propósito” de Sri Prem Baba. Mal comecei a ler super identifiquei-me. Disse até que poderia ter sido escrito por mim*. É um tema que gosto muito porque no meu trabalho me encontrei como ser de missão e ofício. Acredito verdadeiramente que difundir a mensagem da psicologia, por outras palavras levar as pessoas a escolherem a felicidade com tudo o que isso implica, como deixar para trás várias coisas igualmente boas, é a minha missão nesta vida. Digo isto à data de hoje, o amanhã não conheço.

E porque acredito nisto?

Porque me sinto realizada como nunca senti. Como já disse antes, encontrei a felicidade e ela encontrou-me a mim. Com isto quero dizer que tenho dias maus como toda a gente. A diferença é que, olhando agora para trás vejo que não era feliz.

Como sei disso?

Pela sensação de que, mesmo quando as coisas correm mal eu estou bem. Sei que darei a volta por cima. Não me torno reativa ou dramática. Deixo rolar, relativizo. E pelo ímpeto que eu sinto de ir sem nunca querer de mais. Não sei o que a vida me reserva para além do que tenho agora. A minha missão pode ser por aqui, por este pequeno público, pela minha cidade. E está tudo certo!

Por vezes as pessoas dizem-me :” podias fazer isto”; podias ser mais comercial”; “tens potencial para x”. Certo. Mas e se eu não quiser? E se essa não for a minha missão? Não me vou negar a fazer escolhas nesse sentido, mas não me vou colocar numa posição em que arrisque perder o mais importante: EU.

QUE ARRISQUE A PERDER-ME. PERDER-ME NOVAMENTE. Já andei perdida anos que cheguem. Agora que me reencontrei, que regressei a casa, que consigo oferecer qualidade às pessoas que me acompanham não quero perder-me na luxúria, na ambição e na quantidade.

MENOS É MAIS.

As formigas fazem o seu trabalho todos os dias. Elas têm um propósto. Elas trabalham em equipa. Elas cooperam e elas ganham. Todas ganham. E todos os dias lá vão elas cumprir esse desígnio. Elas não questionam, elas simplesmente vão e cada uma sabe LER o seu papel naquela equipa. Elas observam os sinais e vão, intuitivamente vão.

Ao longo da evolução da nossa espécie começamos a perder esta pureza da intuição, do ir simplesmente. Do desígnio, do grupo, da cooperação e da empatia e compaixão. Nós começamos e perdermo-nos primeiro e com isto a olhar para o/a outr@ como um inimig@. Competimos, magoamos, criticamos, inferiorizamos para ficarmos superiores. Um bebé gatinha para perto do adulto para lhe chegar um objeto que ele deixa cair. Este bebé não pensa que o adulto chegará ao objeto mais facilmente e mais rapidamente do que ele. O bebé age por impulso. Esta é a nossa natureza. Mas nós perdemos o nosso desígnio.

Temos o dom de transformar tudo o que é bom em compulsivo, obsessivo, doença…

O trabalho dignifica, eleva o ser humano, dá-lhe um ofício um contributo para a sociedade. Mas, pode tornar-se um vício, uma doença, um querer mais e mais onde nada é suficiente e o número é o objetivo para a nossa própria definição.

Um senhor com mais de 70 anos, limpa todos os dias de manhã a areia na praia, garantindo que, a mesma esteja limpa de paus, algas ou outras coisas que deram à costa durante a noite. Ele tem um ofício, um propósito. Não questiona os seus direitos, o pouco dinheiro que ganha para fazer aquilo. Ele precisa daquilo para viver. Viver na alma não no físico. No dia em que alguém arranjar uma máquina que faça o trabalho dele e o dispense, aquele senhor morre.

Indago se eu não quero ser a formiga, o senhor que limpa a praia, o Manuel de Fontes que trata dos nossos castanheiros e ajuda toda a aldeia, o irmão da Toninha que todos os dias se senta sagradamente após as refeições no tronco de madeira que faz de banco a observar a aldeia; o Isaac com a sua paixão pela terra e que trabalha sempre com aquele sorriso;  a pastora que, ainda em idade avançada, continua a levar as ovelhas todos os dias ao pasto…

Eu sou Joana Coelho, uma formiga, uma gota num ínfimo oceano (parafraseando Madre Teresa), eu quero passar os meus dias a ouvir pessoas, a olhar histórias e a orientar caminhos de luz. E este corpo é apenas um receptáculo…O veículo que transporta o que verdadeiramente importa e (o) ilumina.

 

NOTA: Mais sobre mim aqui. https://psiqevo.com/apsicologaladecasa/2019/11/03/plenitude/

 

*sobre este assunto fiz uma publicação a desaconselhar a compra do livro. Quando penso que eu poderia escrever um livro, penso sempre se terei páginas suficientes para preencher com valor. Um livro ter por norma mais de 100 páginas. É verdade que se eu reunir uma série de coisas que tenho por aí minhas mais outras que quero escrever talvez as tivesse. Mas a sensação que fiquei ao terminar “O propósito” é que ele também não tinha conteúdo suficiente para um livro mas…tinha que ter! Então meio que andou com rodeios nalguns temas e depois, o livro, tem uma série de páginas laranja vazias que parece mesmo para encher. Ao longo da minha vida percebi que por vezes alguns meios estranhos justificam e são importantes para fins maiores. poderá ser este o caso. O mais importante é difundir a mensagem. se é comercial ou não pouco importa.