De onde vem a expressão: “Aceita que dói menos” e o uso vulgar desta palavra “Aceitação” como a solução mágica para todas as adversidades da vida? Presunção? Desinteresse? Realidade? Verdade?
Hoje vou escrever sobre este termo que, usado vulgarmente, pode parecer o completo desinteresse e desprezo pela dor e sofrimento alheios ( poderia falar da falta de empatia e compaixão na nossa sociedade, mas isso fica para outro artigo).
Mas afinal o que é a ACEITAÇÃO no contexto clínico e de saúde?
Em 1999 Steven Heyes e colaboradores, evidenciaram a Teoria da Aceitação e Compromisso (ACT) que assenta na premissa de que o ser humano não possui controlo sobre determinadas situações que o colocam em mau-estar e desconforto, tendo a solução única de as integrar em si, aceitando-as e abraçado-as como parte de si e, a partir daqui, aprender a viver com elas próativamente.
Numa sociedade marcadamente patriarcal, como a nossa, a leitura que é feita (in)consciencentemente é a de que as emoções devem ser escondidas, reduzidas, camufladas. Verificamos isto na educação do género masculino, onde chorar não é coisa de homem, contudo também patente nas características do género feminino, fragilidade e sensibilidade, como algo pejorativo e castrador. As emoções são empecilhos, entraves à performance produtiva que tanto auspiciamos. Contudo, as emoções, fazem parte do ser humano, são pertença da sua natureza e é impossível, para não dizer que constitui um atentado à sua sobrevivência, vivermos ocultando-as.
É com base nisto que nasce esta teoria. A aceitação é a compreensão e, passando a redundância, aceitação de que só se vencem verdadeiramente as adversidades, através da consciencialização das mesmas e lidando com elas – integrando-as. Temos duas opções: ou nos escondemos das nossas próprias fragilidades uma vida inteira, reprimindo-as e tornando-as mais graves e expressivas socialmente (sob a forma de uma comunicação agressiva, e.g.) ou paramos de fugir e, percebendo que elas existem, procuramos ações e atitudes que nos permitem viver em perfeita harmonia com elas.
As fragilidades ou adversidades são como os medos. Quanto mais os evitamos mais eles aumentam de dimensão – mais medo temos.
Nos últimos anos a palavra aceitação tornou-se vulgar nas frases inspiradoras das redes sociais, nos mantras, nas meditação e contra isso nada. Não obstante, dizer a alguém em sofrimento “aceita” é vazio e desolador para não falar do “aceita que dói menos”! É quase como “agora que estás no precipício queres que te empurre?”
Aceitar é um processo de cura, de trabalho interno, de mudança interior, de intervenção. Não é SÓ aceitar, não basta SOMENTE aceitar.
E como se aceita?
Através de um trabalho e orientação internos que vão desde a descoberta da sua forma de pensar ao autoconhecimento.
Voltando à teoria e relativamente ao conceito de compromisso, refere-se à parte que permite que a aceitação seja duradoura. É criado um compromisso da pessoa consigo mesma, com base numa reestruturação do sistema de crenças e da criação de um propósito ou sentido de vida. Assenta igualmente na clarificação de valores e definição de objetivos – quem sou e quem eu quero ser e quem eu estou a ser? Estas 3 dimensões são a mesma pessoa? São a sua essência? Refletem o seu verdadeiro EU?
Fica a dica 🙂
Visualização Opcional:

