Muitas vezes carregamos de sentimentos não só pessoas mas objetos, locais ou acontecimentos. São peões ou bodes expiatórios de sentimentos mais profundos que a pessoa tem de culpa, remorso, sofrimento, raiva, ódio….e que os desenvolveu através de nós no pensamento.
Para transformarmos estes símbolos de negatividade em positividade e sempre com vista ao que é estabelecido na relação terapêutica, usamo-los para a promoção da reestruturação cognitiva – do pequeno para o maior, do mais fácil para o mais difícil, do mais recente para o mais antigo.
Durante uma sessão de psicoterapia, solicitei à cliente que fizesse um texto sob a premissa da “perda” da casa dos seus pais que será demolida brevemente e que simbolicamente representa a morte, o fim, a perda. O mote para o desenvolvimento deste texto foi baseado em algo que me ensinaram na catequese, a Igreja somos nós que a fazemos e não as pedras.
O objetivo principal é lançar as sementes para um luto bem feito (o dos seus pais) e usamos a casa para iniciar o processo de desatar estes nós, fechando este capítulo de uma forma construtiva e transformadora. Uma forma que possibilite à pessoa revisitar estes momentos sem dor ou sofrimento, mas com a saudade e a alegria de os ter vivido.
A cliente enviou-me partes deste artigo “Quando a casa dos avós se fecha” . Deixo aqui algumas passagens que espelham as emoções negativas que ela carrega e que transfere para aquela casa: “(…)quando essa porta se fecha, encerramos os encontros com todos os membros da família (…) também terminamos as tardes felizes (…) É difícil aceitar que isso tenha um prazo, que um dia tudo ficará coberto de pó, e o riso será uma lembrança longínqua de tempos talvez melhores (…) Fechar a casa dos avós é dizer adeus às canções com a avó e aos conselhos do avô”.
De uma forma positiva escrevi-lhe o seguinte:
– “Porque a casa dos avós só se fecha se @s net@s não tiverem força para a “abrirem”, se @s net@s foram tão “fechad@s” que não tenham aprendido nada com esses avós, não tenham aprendido a dar sem pedir nada em troca, não tenham aprendido a amar e a receber e que não queiram perpetuar o que de bom esses avós lhes tentaram transmitir. Porque a lei da vida é esta…é nós termos a capacidade de ensinarmos a alguém a VIVER e deixarmos ir.
Este é o meu propósito, ensinar as pessoas que por aqui passam a VIVER e depois deixá-las ir…elas vão e eu fico. Fica comigo aquela sensação de perda mas ao mesmo tempo de missão cumprida. E é isso que deve ser um avô, um pai, uma mãe…alguém que deixa connosco a semente de ser mais e melhor para a pessoa que vem depois e que fica ao meu cuidado.”
Decidi escrever sobre isto, sobre este momento por achar que merece ser partilhado. Rinpoche no seu livro fantástico “O livre Tibetano da Vida e da Morte” diz-nos que as pessoas vivem a morte como vivem a vida. Concordo plenamente e é esta a mensagem que quero deixar hoje, temos um propósito e um legado, não podemos viver no passado ou viver com medo do amanhã. Temos que viver no agora, onde podemos fazer a diferença, onde temos espaço e tempo para SER. Cabe-me a mim, a si e a ti pegar naquilo que de bom os nossos entes querid@s nos deixaram e dar-lhes extensão através de nós mesmos. Esta é a nossa verdadeira herança e aquilo que em verdade merece perdurar.
A porta da casa dos pais nunca se fecha exceto se @ filh@ assim quiser.
“Seja a mudança que quer ver no mundo”.
Na vida só perdemos aquilo que queremos. Há sempre o copo meio cheio ou o copo meio vazio. Com o meio cheio não ganhamos nada, pelo contrário, corremos o risco de cairmos num poço sem fundo. Com o meio cheio temos a oportunidade de transformar, criar.
O que vai escolher, a vida ou a morte?
Vamos abrir a porta?

