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A ilusão do esquecimento

Quando era pequeno, M. estava a jogar à bola no terraço da casa da avó, com o pai. A avó, impaciente pelo barulho do reguila, preocupava-se com a saúde de um vaso ali próximo. Chamou a atenção da criança uma vez: “olha que deitas o vaso abaixo”; duas vezes “se deitas o vaso baixo levas”, três vezes “vais-me estragar o vaso!”

Não houve mais vezes porque, perante a persistência da criança em o ser, mantendo o comportamento e ignorando os avisos da anciã – porque para uma criança está sempre tudo controlado – a mesma levanta-se de supetão e deita ela própria o vaso abaixo proferindo – “Vês, eu avisei-te que o vaso ia cair!”

Porque queremos tanto esquecer a dor e o sofrimento? Fazemos de tudo para calar a dor, álcool, trabalhar, acumular, drogas, comida, compras…na vã certeza de que, esquecer levará consigo as preocupações, medos e a intransigência de uma mente confusa.

Mas os fantasmas levantam-se mais fortes do que nunca a cada regresso à dura realidade. Não só não desaparecem como trazem consigo o peso da culpa, a possessão do arrependimento e a certeza de que a dor é agora mais pungente, mais dilacerante apertando e espremendo qualquer possibilidade de cura.

Preferimos desistir  a viver com a possibilidade da falha. Assim, ilusoriamente, estamos no controlo porque NÓS DECIDIMOS desistir. Não erramos ao tentar, nós simplesmente colocamos um ponto final. Não queremos mais!

A verdade é que voltaremos a mergulhar na sombra da fraqueza, envolvidos como uma mosca na teia da negatividade onde mal conseguimos respirar, mas onde nos contentamos com restos. Com a impossibilidade, com a vitimização, sem termos noção de que fomos nós, os responsáveis, pela criação dessa mesma teia.

Com medo de falhares, nem sequer tentas. Porque é mais fácil. Mas quem escolhe o fácil escolhe também o caminho da frustração e uma pessoa frustada ora humilha o seu semelhante ora se recolhe ao conforto desconcertante da vitimização – onde há para todos/as menos para ela.

E voltando ao início, não foi a avó que desistiu. Foi M. que a irritou… (As (des)culpas).

 

 

A Psicóloga Lá de Casa.