Ninguém gosta de sentir dor certo?
Mas o problema da dor é muito maior do que não gostar. Ninguém quer sentir dor e a maior parte de nós fará tudo para a evitar, começando pelo básico e socialmente aceite – os medicamentos.
Na psicologia aprendemos o que é a dor física e a dor emocional. Aprendemos que as duas estão interligadas. Eis o que se passa: quando temos um dor física, temos consciência da mesma logo, prestamos a nossa atenção. Esta atenção e consciência associadas à intensidade e duração da dor ativa uma emoção chamada MEDO. O medo conduz-nos a uma torrente de pensamentos da sua natureza que dependem claro, da pessoa e das suas experiências de vida, como por exemplo:
“O que é isto?” “Será que vou ficar outra vez mal?” “Não me digas que não vou puder ir de férias à conta disto… “Outra vez?!” “Será grave?”
Como já expliquei por aqui, um pensamento leva a outro e outro e outro. Nenhum melhor que o anterior e cada um nos enterra mais.
Como se de um motor de busca se tratasse, o pensamento ” Será que é grave” vai trazer à tona tudo o cérebro entende por “grave” – cancro, morte, etc etc.
Sou uma pessoa com muitas dores nas costas. Tenho algumas características físicas que as explicam mas sei que o stress exacerba. Contudo, ao longo do meu processo de fisioterapia pude aperceber-me de várias coisas – que a literatura já me dizia mas que, nada como sentirmos na pele:
- a dor dispersa se aprendermos a lidar com a emoção que lhe sucede;
- há um momento na dor, depois de estarmos a lutar contra ela, em que é possível agarrar-la, embalar-me nela e superá-la.
Nas minhas várias sessões de RPG (reestruturação da posição global) apercebi-me de que, há um momento inicial de luta com o meu cérebro começando no “Eu não consigo” Ou “vai-me partir um braço”, que eu percebi puder ir mais além… e quando eu agarro esse momento eu sei que consigo fazer mais do que o que ela me pede. Isso, faz-me perceber nas sessões seguintes que os pensamentos negativos iniciais são os de sobrevivência, os de MEDO e perigo e que não são reais mas, pelo contrário, são limitativos. Disfuncionais. Mantendo-os em mim e não agindo contra a mensagem deles, não teria chegado até à amplitude de movimento que conquistei. É um trabalho milimétrico mas faz-se, acontece. Claro que me apetece desistir mas eu lembro-me como comecei e onde estou hoje. Desistir não é opção.
Sabem quando temos uma dor de dentes e estamos com a língua sempre ali a massacrar? Mas quando nos distraímos com algo mais importante parece que de repente a dor foi…até que alguém nos pergunta se estamos melhor e oops, volta tudo 🙂
É isso. O ser humano não quer sofrer. A dor física é um gatilho instintivo de perigo e, sem querer, ativamos todas as nossas armas para lutarmos contra ela. ERRO. Ela exacerba-se. A única forma de a rebater é mesmo enfrentá-la, deixá-la passar, vivê-la...
Isto parece que não faz sentido mas vejamos a dor emocional…aquela pessoa cujo pai violou, a mãe batia e berrava constantemente ou que foi assaltava e ferida gravemente ou aquela pessoa que reprovou num exame e se sentiu envergonhada e humilhada…todas estas pessoas e nós tod@s temos dores emocionais, medos de fracassar, falhar, não ter e não ser…e tal como acontece com a dor física, estas dores só se ultrapassam conversando com as mesmas e aceitando-as. Conversar com elas é aceitar que a dor existe, que temos a capacidade de a libertar dirigindo a atenção para o que mais importa e que ela não é sinónimo de morte, fracasso ou fragilidade…
Porque para muitas pessoas, ter dor é coisa de frac@s…mas ela existe, ela está aí! Que tal pararmos e auscultarmos o nosso corpo?
Nota: por vezes as dores físicas são sinais de instabilidade emocional.
A Psicóloga Lá de Casa.

